Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



2016, novinho a estrear

por MC, em 31.12.15

xmas spirit.jpg

 

Parece-me um ponto de partida simples e limpinho. É uma atitude que muito aprecio e lá vou tentando exercitar. Nem sempre consigo, que as boas intenções são coisas que resvalam para o inferno com alguma facilidade, como toda a gente sabe; e existem criaturas em cuja órbita não há condições de salubridade para o salutar exercício da cordialidade, a saber:

 

- pessoas com egos de envergadura superior à da maioria das galáxias conhecidas;

 

- pessoas que colocam hífens quando conjugam o pretérito perfeito do indicativo;

 

- a tia-avó Luzia, que nunca fecha a boca - mesmo quando come - e nos brinda sistematicamente com perdigotos multi-sabores e a quem ninguém pede para passar a travessa no almoço de Natal;

 

- pessoas que entendem que as suas metáforas religiosas sobre o Bem e o Mal são melhores que as metáforas dos outros;

 

- oportunistas promíscuos que descaradamente se apropriam de bens alheios e ainda conseguem afirmar sem enrubescer que são os pretos /os ciganos / os doentes / os velhos que levam o país à penúria;

 

-todas as pessoas que vivem em constante estado de graça / amor / paz / luz / esperança / superação - e sobretudo  todas as pessoas que desajuizadamente alimentam e validam estes delírios.

 

- a vizinha Adelaide, que cuida padecer de todos os males do universo e arredores, a quem nenhum morador avisado se atreve a colocar a cordial questão “como está?”, sob pena de ser contemplado com a discriminação penosa e detalhada do compêndio de patologias médicas de A a Z.

 

- pessoas que procuram desesperadamente um lugarzinho debaixo de um holofote, mas que posteriormente choram indignadas lágrimas de sangue, enquanto raspam das lantejoulas as nódoas de tomate podre, maldizendo a plateia ingrata, cobiçosa e ignorante.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:20

Boas contas

por MC, em 17.12.15

Os cabelos ondulados de um loiro improvável espraiam-se sobre o caderno. As unhas longas pintadas de púrpura com pequenas aplicações brilhantes tamborilam de impaciência no tampo da mesa.

“Então, como vai isso?”, pergunta-lhe a mulher com tranquilidade, magistralmente fingindo não ver o enfado evidente, tão incontornável como um elefante no meio da sala.

“Não consigo fazer”, declara com maus modos e descruza rapidamente as pernas demasiado longas. O movimento brusco faz cair o lápis, a aresta da velha mesa lascada lavra-lhe uma malha apressada nas meias de vidro pretas. O semblante cerra-se ainda mais, o nariz de bebé enruga-se de impaciência e contrariedade.

“Tem calma. Vamos lá raciocinar aqui as duas”, diz-lhe com um bonito sorriso persuasivo. “Então o João comprou um chocolate que lhe custou dois euros. Comprou também uma sandes de fiambre por um euro e cinquenta cêntimos. E depois gastou setenta e cinco cêntimos numa caixa de pastilhas. Quanto gastou o João no total, é o que queremos saber. Que tipo de conta precisamos então de fazer, hein?”, questionou, abrindo os olhos encorajadoramente.

As pestanas reviram-se-lhe impacientemente. “Sei lá. É de «vezes»?”

A respiração agita-se involuntariamente, mas a serenidade mantém-se. “Não, repara: ele gastou dois euros, depois um euro e cinquenta cêntimos e finalmente setenta e cinco cêntimos. Ora para sabermos quanto foi a despesa t-o-t-a-l, que conta precisamos de fazer?”

“Ok, temos de… errrrr… dividir”, arrisca sem convicção, o olhar arredio concentrado nas minúsculas cutículas esgaçadas à volta das unhas.

Engoliu com esforço o ar que lhe engulhava a garganta e tossiu levemente para ganhar tempo e calma. Enunciou pausadamente, como quem reza para enxotar o demónio: “Ora pensa lá bem: ele gastou dois euros – MAIS - um euro e cinquenta cêntimos – MAIS - setenta e cinco cêntimos. Então, para saber quanto é a primeira quantia, MAIS a segunda quantia, MAIS a terceira quantia, que tipo de conta precisamos de fazer?”

Fechou as mãos com força e encolheu-se involuntariamente à espera do imprevisível desfecho.

“Pronto, já sei: é uma conta de «mais» ”, anunciou com desdém. E antes que o júbilo do triunfo inundasse a sala, disparou, contrariadora: “mas não me apetece, vou fazer de «menos».”

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:13

pearls 14.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:26

Pantufas

por MC, em 10.12.15

“Estou farto de trabalhos de casa!”, desabafa, as sobrancelhas alterosas, a testa pregueada de arrelias. “É que estou mesmo fartinho! Dos trabalhos, das fichas que nunca mais acabam, da matemática, da escola inteira!” – resmunga num crescendo globalizador, os olhos pestanudos revirados para um Céu muito pouco interventivo.

A mão nodosa, de dedos estropiados pelos anos, acaricia-lhe os cabelos com meiguice. “Então, diga lá à sua bisavó qual é a razão de tanto azedume…”, questiona, com a voz cheia de riso.

“Ó Bisa”, desabafa, com amplo gesto dramático de braços: “já viste há quantas hooooraaaaaas aqui estou a fazer os trabalhos de casa? Já viste? Olha que desde que cheguei a casa! E já é noite escura, estás a ver? Não aguento mais, Bisa!”, lastima-se, com os olhos já rasos de lágrimas.

“Anda cá, senta-te aqui um só um bocadinho ao pé de mim”, propõe-lhe a bisavó. “A não ser que já estejas muito crescido para um colinho…” espicaçou-o.

“Ok, mas só um minutinho”, respondeu, a birra ainda a travar-lhe o sorriso. “E eu que gostava tanto da escola nos primeiros dias! Lembras-te, Bisa? Agora detesto! Ir à escola é horrível, não achas?”

“Não sei, querido. Eu não fui à escola”, foi a resposta tranquila.

“Não foste?!” suspeitou. “Que grande malandreca que tu eras!”

“Não fui, mas tive muita pena. Gostaria tanto de ter podido ir à escola!”

“Não havia escola quando eras pequenina, Bisa?”

“Sim, meu amor. Havia uma escola na aldeia, mas eu não podia ir, porque tinha de trabalhar.”

“Trabalhar?!”, repetiu agastado, suspeitando de marosca. “As crianças não têm empregos!”

“Pois não, querido. Mas naquele tempo era assim: as crianças ajudavam os seus pais e só iam à escola quando podiam.”

“Mas se tu eras pequenina não sabias fazer nada, os crescidos é que sabem trabalhar!”

“Eu conto-te: os meus pais viviam numa quinta longe da aldeia, tinham ovelhas e faziam queijos para vender no mercado. Era preciso levar as ovelhas a pastar nos campos muito cedo, ainda de noite, e eu ia com o meu pai, para o ajudar. Só voltávamos à noite, à hora da ceia. Às vezes, no Inverno, eu tinha muito frio e sono, mas não podia ficar em casa.”

“Tinhas mesmo de ir, Bisa? Eu não gosto de levantar cedo. Um dia nós tivemos de levantar muito de noite para ir a casa do avô Bino e eu não queria ir e fiquei rabugento e o pai levou-me em pijama e pantufas para o carro e também estava muito frio e eu não gostei. Também ias de pantufas guardar as ovelhas, Bisa?”

“Não, meu amor, eu não tinha pantufas”, declarou num sorriso aberto e sereno. “Nem sequer tinha sapatos! Ia descalcinha pelos caminhos, que até me pelava!”

“Descalça, Bisa?!”, questionou, o assombro a bailar-lhe nos olhos. “E não tinhas frio?”

Na memória exaurida correm imagens sincopadas, como numa película velha do cinema mudo: uma menina franzina a dormitar de pé, encostada ao pai, o frio intenso das madrugadas de Inverno, as carnes violáceas e dormentes da geada. “Tinha um bocadinho, tinha.”

“Estás a ver que eu antes queria estar em casa sossegadinha a fazer contas, não estás?” rematou com uma piscadela de olho e um trejeito a apontar para os cadernos abertos na mesa.

“Está bem, já percebi. Vou fazer o resto”, anuiu com um beicinho. A meio caminho travou e voltou-se para trás. Fitou-a com um inesperado olhar adulto e disse-lhe: “Olha, Bisa, quando tu eras pequenina ainda não me conhecias e eu não te podia ajudar, mas isso agora não volta a acontecer – quando tu tiveres frio, dizes-me logo, que eu empresto-te as minhas pantufas do Mickey, ouviste?”

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:12

Pecados ao Domingo contam mais?

por MC, em 07.12.15

Manhã gloriosa de Domingo de Outono. O sol entra sem vergonhas pelas amplas montras da pastelaria do bairro, projectando nas mesas os padrões geométricos filtrados pelas persianas de tecido translucido. Na mesa do costume, repetimos as rotinas domingueiras: um café a escaldar, às vezes dois, uma leitura descuidada do jornal, invariavelmente abalroada pela riqueza de cheiros e vozes que nos rodeiam.

 

Um vulto passa com leveza e graciosidade pela nossa mesa, tão perto que roça por instantes o casaco que repousa nas costas da cadeira. É uma miúda alta e esguia, de olhar luminoso, os cabelos dourados enredados num imenso cachecol laranja, os jeans puídos e esburacados, de um azul quase branco. É toda ela um fenómeno vaporoso, aéreo, como uma andorinha a cheirar a jasmim.

 

Senta-se e coloca sobre a mesa o prato que trazia na mão, onde transborda escandalosamente uma gigantesca rabanada. Mula. Mula é a primeira palavra que me vem à cabeça, assim que os meus olhos mergulham naquele demoníaco objecto de gula, os cantos do pão, pesados de canela e açúcar, a pender macios para fora do prato, a calda a alastrar douradinha pelo guardanapo. Mula. Como se atreve a etérea criatura a alambazar, assim, leviana e impunemente, a dose trianual de açúcares a chafurdar em lípidos que a pessoa comum (vulgo eu) se permite, não sem uma subsequente e impiedosa autoflagelação?    

 

Logo me arrependo da ruindade. Coitadinha, que direito tenho de toldar com amargura invejosa os seus verdes anos de todas as impunidades? Afogo, em remorso e café bem quente, os pensamentos maldosos. A inveja, assim de braço dado com a gula, ainda por cima a um Domingo, deve contar a dobrar na contabilidade divina.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:20

Laços

por MC, em 03.12.15

 

Percorro o longo corredor ainda mergulhado na penumbra da alvorada chuvosa. Na sala de espera, algumas pessoas aguardam já em silêncio, apesar faltar quase uma hora para o início do expediente.

No gabinete, repito distraidamente os gestos de todos os dias: água a ferver na chaleira, a chávena em espera na beira do aparador, a revista breve da agenda, a organização mental das tarefas. Sobre a secretária, no espaço livre em frente à cadeira, repousa uma pasta que não estava lá no dia anterior. A sua presença, ali imposta com um certo descaramento exibicionista, como quem desrespeita uma fila, revela um afogadilho de urgência. Tem nome de mulher e é anafada (a pasta, não a mulher), tem as entranhas atafulhadas de folhas de vários tamanhos e cores, algumas já amarelecidas por outonos antigos.

 

Uma leitura rápida das primeiras páginas confirma o apressuramento da causa. Instintivamente, abeiro-me da sala de espera e profiro o nome que consta na pasta. Uma mulher levanta-se como uma mola, os braços magros cruzados sobre uma mala preta, diz “sou eu, sou eu” e entra pressurosa no gabinete. Atrás dela, como uma sombra, entra um rapaz também esguio, de andar desengonçado de adolescente.

 

Convido-os a sentar, a mulher oferece-me um sorriso grato e diz: “ainda bem que foi a senhora que me chamou, e não o outro senhor!” Ensaio um pedido de desculpa pela descortesia de não a reconhecer também, mas sou de imediato tranquilizada que não, não nos conhecemos, mas que ela fica muito mais serena “em falando com uma senhora”.

“Sabe”, continua ela depois de instalada, “é que eu tenho muita vergonha de falar no meu caso”, declara com uma vozinha sumida, enquanto acaricia a mão do rapaz sentado ao seu lado. O miúdo é esguio, mais alto que a mãe, todo ele braços e pernas a crescer num despropósito, os joelhos ossudos, a face angulosa e pálida, a tez infantil a começar a ser contrariada por um arremedo de barba penugenta a despontar. 

 

“Não tem de ter vergonha”, asseguro-lhe: “nenhuma pessoa deveria sentir vergonha por ter sido vítima de agressão”. O rapaz desliza lateralmente na cadeira para ficar praticamente colado a ela. Agora é ele que segura a mão dela. “Não é disso que tenho vergonha”, diz ela. “Envergonho-me de ter escolhido aquele homem para pai do meu filho, sabe? Fui eu que o aceitei. A culpa de tudo o que se tem passado é minha, sabe? Eu é que quis namorar com ele, eu é que fugi de casa para estar com ele, eu é que decidi ter um filho para ver se as coisas melhoravam, percebe? Eu é que sou responsável pela vida miserável deste menino, essa é que é a verdade”.  As lágrimas caem livremente e realçam-lhe as olheiras arroxeadas. O rapaz escuta-a, aflito, e segue as suas palavras com os olhos a transbordar de choro e meiguice.

 

Aceitam o chá que lhes ofereço. As canecas fumegantes ocupam-lhes as mãos e amparam-lhes o olhar. A mulher desenrola o seu novelo, conta pelos dedos as agressões que ambos sofreram, as estadias no hospital, as queixas na polícia, as agruras das audições, as comparências em tribunal, mostra as cicatrizes de um e outro, as mazelas nos ossos, os vestígios das feridas, a voragem do medo, o negrume da perpétua agonia a roer-lhes o espírito. Por duas vezes ganharam ânsias de fugir, foram ajudados, saíram silenciosamente, escondidos no negro da noite. Por duas vezes começaram de novo, longe, uma vida de pacatez e mansidão, sempre interrompida pelo terror de terem sido novamente encontrados.

 

Estão os dois encostados um ao outro, como siameses compactamente unidos. “Cá estamos mais uma vez a precisar ajuda”, remata a mulher, as lágrimas ainda a correr-lhe no rosto branco. Estão imóveis, os dois, o choro a exacerbar-lhes o cansaço. A certa altura, a mulher repara no rosto desfigurado do rapaz: os olhos vermelhos das lágrimas, o nariz, demasiado grande, vermelho e inchado, a humidade do ranho a descer-lhe para os lábios. Tira então da mala um gracioso e delicado lencinho e, segurando-o com elegância entre o polegar e o indicador, assoa o nariz do seu menino, num gesto carregado de infinita ternura e de um amor avassalador, tão real e tangível, claramente tão maior e mais forte do que a estúpida bestialidade que os persegue. 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:44

Jeffrey T. Larson - In The Light Of Morning.png

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:22


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

foto do autor


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D